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08 de Março — Dia Internacional da Mulher: história, consciência e caminhos de emancipação

  • Writer: siteconaflor
    siteconaflor
  • 24 hours ago
  • 7 min read

Uma reflexão sobre as raízes históricas da condição feminina, as lutas por direitos ao longo do tempo e a importância da consciência histórica na construção de relações mais equilibradas entre mulheres e homens.



Onde se inicia a opressão do feminino?


De acordo com estudos históricos e antropológicos, a opressão do feminino não surgiu de forma súbita nem em um único momento da história. Trata-se de um processo gradual, que se desenvolveu ao longo de aproximadamente 2.500 anos, entre cerca de 3100 a.C. e 600 a.C., especialmente nas civilizações do Antigo Oriente Próximo, como a Mesopotâmia.


Um dos fatores centrais dessa transformação está relacionado à transição das sociedades de caçadores-coletores para sociedades agrícolas sedentárias. Com o desenvolvimento da agricultura — especialmente da agricultura de arado — as crianças passaram a ser vistas como um recurso econômico importante para o trabalho. Nesse contexto, a capacidade reprodutiva das mulheres começou a ser socialmente apropriada e controlada, tornando-se parte da organização econômica emergente.


A subordinação feminina também se consolidou por meio de práticas sociais antigas, como o intercâmbio de mulheres entre tribos e grupos para estabelecer alianças matrimoniais. Nessas estruturas, os homens detinham direitos sobre as mulheres que não eram recíprocos, estabelecendo relações de posse e dependência.


Algumas historiadoras apontam que os primeiros modelos de dominação social foram experimentados inicialmente sobre as próprias mulheres. Em contextos de guerra e conquista, mulheres de grupos vencidos eram mantidas vivas para trabalho e exploração sexual, enquanto os homens frequentemente eram mortos ou expulsos. Esse processo contribuiu para o desenvolvimento posterior de sistemas mais amplos de escravidão e hierarquia social.


Com o tempo, essas relações foram formalizadas em códigos legais e estruturas simbólicas. Leis antigas, como o Código de Hamurabi e as Leis Médio-Assírias, consolidaram juridicamente a família patriarcal e o controle da sexualidade feminina.



Paralelamente, ocorreu uma transformação simbólica importante. Antigas tradições que reverenciavam deusas associadas à criação e à fertilidade foram gradualmente substituídas por sistemas religiosos centrados em divindades masculinas. Esse deslocamento simbólico contribuiu para afastar as mulheres do papel de mediadoras do sagrado e da produção de significado cultural.


Em muitas culturas antigas, o poder de gerar vida exercido pelas mulheres despertava simultaneamente admiração e temor, levando à veneração da Grande Deusa ou Deusa-Mãe. Com o tempo, porém, esse poder criador passou a ser reinterpretado dentro de sistemas simbólicos que o transferiram progressivamente para figuras masculinas, como a ideia de um Deus-Pai criador.


Assim, a construção histórica do patriarcado pode ser compreendida como um processo social, econômico, simbólico e cultural, no qual o controle sobre a reprodução, a sexualidade e o papel social das mulheres passou a integrar a organização das primeiras civilizações.


Refletir sobre essas origens não significa buscar culpados em um único gênero ou momento histórico, mas compreender os processos que moldaram as relações entre feminino e masculino ao longo do tempo.


A sujeição feminina nas esferas familiar, econômica e social


Diversos estudos históricos e sociológicos indicam que a condição feminina, em diferentes períodos, apresentou características comparáveis a formas estruturais de servidão ou escravidão.


Essa estrutura pode ser observada em três dimensões principais da organização social: a família, a economia e a vida pública.


A esfera familiar


Na organização patriarcal tradicional, a família tornou-se um dos principais espaços de controle sobre a vida feminina. Algumas análises descrevem o casamento histórico como um contrato de sujeição, no qual a liberdade civil masculina se sustentava no direito patriarcal exercido sobre a mulher.


Nesse modelo, o trabalho doméstico e o cuidado familiar eram realizados de forma não remunerada e naturalizada, embora fossem fundamentais para a manutenção da vida e da sociedade.


Historicamente, o próprio termo família deriva do latim famulus, associado ao conjunto de servos e dependentes submetidos à autoridade de um chefe. Assim consolidou-se uma lógica paternalista na qual muitas mulheres trocavam submissão e trabalho doméstico por proteção e sustento, permanecendo em estado de dependência econômica e social.


A esfera econômica


No campo econômico, a desigualdade manifesta-se sobretudo pela invisibilidade e desvalorização do trabalho feminino.


Grande parte das atividades desempenhadas pelas mulheres — especialmente o trabalho doméstico, de cuidado e de reprodução social — permaneceu historicamente fora das estatísticas econômicas e sem reconhecimento financeiro.



Esse trabalho invisível sustenta, na prática, a própria reprodução da força de trabalho da sociedade.


Mesmo com a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho ao longo do século XX, permaneceu em muitos contextos a chamada dupla ou tripla jornada, na qual as mulheres acumulam trabalho remunerado, trabalho doméstico e responsabilidades familiares.


A esfera social


No plano social mais amplo, alguns estudos apontam que os primeiros sistemas de dominação entre grupos humanos podem ter sido precedidos pela apropriação da capacidade reprodutiva e do trabalho das mulheres.


A historiadora Gerda Lerner argumenta que, em sociedades antigas, a escravização de mulheres capturadas em guerras — utilizadas para trabalho e exploração sexual — antecedeu a escravização sistemática de homens.


Esse processo contribuiu para estruturar sociedades em que a posição das mulheres passou a ser definida por sua relação com os homens — pai, marido ou chefe familiar — estabelecendo classificações sociais baseadas no controle da sexualidade feminina.


A internalização da subordinação


Além das estruturas sociais e econômicas, a psicologia social indica que sistemas de dominação prolongados produzem processos de internalização de valores e normas sociais.


Durante séculos, muitas mulheres foram educadas dentro de sistemas culturais que reforçavam ideias de inferioridade, fragilidade ou dependência. Ao longo do tempo, essas representações passaram a ser percebidas como algo natural ou inevitável.


Normas sociais externas são incorporadas como padrões internos de comportamento. Assim, muitas mulheres passam a sentir-se responsáveis por cumprir papéis socialmente impostos, desenvolvendo autocobrança para corresponder a expectativas de submissão ou sacrifício.


Outro efeito desse sistema foi a criação de divisões internas entre as próprias mulheres, classificadas segundo critérios morais ou sociais. Essa fragmentação dificultou, por longos períodos, a construção de solidariedade feminina e consciência coletiva.


 O Dia Internacional da Mulher


Muitas pessoas desconhecem que o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, não surgiu originalmente como uma data comemorativa, mas como um marco histórico de luta por direitos sociais, trabalhistas e políticos.


Sua origem está ligada às transformações sociais do final do século XIX e início do século XX, período marcado pela industrialização e pela organização de movimentos operários.


Naquele período, mulheres trabalhadoras enfrentavam jornadas de até 12 ou 13 horas diárias, baixos salários e condições de trabalho precárias. Grande parte do trabalho feminino, especialmente no meio rural, sequer era reconhecida nas estatísticas.


Em 1910, durante a Conferência Internacional de Mulheres Socialistas em Copenhague, foi proposta a criação de uma Jornada Internacional das Mulheres.


Em 1917, mulheres operárias iniciaram uma grande manifestação em Petrogrado, na Rússia, exigindo “pão e paz”. A mobilização ocorreu em 23 de fevereiro no calendário russo, correspondente ao 8 de março no calendário ocidental, desencadeando uma greve geral que contribuiu para o início da Revolução Russa.


Esses acontecimentos consolidaram o 8 de março como símbolo internacional da luta das mulheres trabalhadoras.


No Brasil, o movimento operário do início do século XX também contou com forte participação feminina, influenciado por imigrantes europeus que trouxeram ideias libertárias e anarquistas. Um marco importante foi a Greve Geral de 1917, que mobilizou milhares de trabalhadores.


Ao longo do século XX, o 8 de março tornou-se um momento de mobilização global.

Em 1975, a ONU declarou o Ano Internacional da Mulher, inaugurando a Década das Nações Unidas para as Mulheres — Igualdade, Desenvolvimento e Paz.


Mais recentemente, legislações e políticas públicas passaram a ser simbolicamente relacionadas à data. No Brasil, destacam-se a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que institui mecanismos de prevenção e combate à violência doméstica e familiar contra a mulher, assegurando proteção e assistência às vítimas, e a Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015), sancionada durante a semana do Dia Internacional da Mulher.



Assim, o 8 de março consolidou-se como um símbolo de memória histórica, reflexão e mobilização social.


Consciência, memória e emancipação


Diante desse percurso histórico, torna-se evidente que um dos pilares fundamentais da emancipação das mulheres é o processo de conscientização sobre sua própria condição histórica.


A conscientização das mulheres como seres humanos plenos e portadores de direitos iguais representa uma ruptura com sistemas culturais que naturalizaram a desigualdade.


Esse processo começa com a desnaturalização da subordinação, compreendendo que muitas representações sobre o feminino são construções históricas e não determinações biológicas.


Outro elemento essencial é o resgate da história das mulheres, que devolve reconhecimento ao papel feminino como agente fundamental na construção das sociedades humanas.


A emancipação também envolve a chamada apropriação de si: o reconhecimento da mulher como sujeito de sua própria vida, com autonomia para decidir sobre sua trajetória, seu trabalho, sua sexualidade e suas escolhas.


Esse processo não é apenas individual. Ele se desenvolve na relação entre consciência pessoal e transformação coletiva.


Nesse horizonte, o Dia Internacional da Mulher deixa de ser apenas uma data simbólica e torna-se um convite permanente à reflexão sobre o passado, à valorização das conquistas presentes e à construção de um futuro em que homens e mulheres possam caminhar juntos, reconhecendo-se igualmente como expressões plenas da humanidade.




Referências Bibliográficas

 

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